A estamparia é uma das linguagens que mais traduzem o meu olhar sobre a moda. Em cada composição, vejo a possibilidade de narrar histórias, representar identidades e transformar tecidos em suportes de memória e cultura. Meu trabalho parte dessa compreensão: criar não é apenas desenhar formas, mas tecer significados — unir cor, textura e simbologia em um mesmo gesto criativo.
Para mim, a moda é um campo de experimentação visual e cultural. Cada projeto nasce do desejo de aperfeiçoar o olhar e refinar o gesto, transformando o processo criativo em uma ponte entre o passado e o presente, entre a tradição e a inovação. É nesse diálogo que encontro propósito: criar peças que expressem tanto o domínio técnico quanto a profundidade estética que a moda carrega como arte e como linguagem.
A coleção Gigantes da Calmaria nasce do encontro entre o silêncio profundo do oceano e a presença majestosa do tubarão-baleia, o maior peixe do mundo e, paradoxalmente, também um dos mais gentis. Em meio à imensidão azul, esses gigantes pontilhados percorrem rotas ancestrais, guiados por correntes silenciosas, filtrando vida, luz e memória através das guelras.
A estampa desta coleção se inspira nas constelações naturais que marcam sua pele —pontos, linhas e padrões dos tubrões Baleia que lembram mapas celestes submersos e a vida marinha em comunhão. Cada desenho é construído como se fosse um fragmento do oceano visto de dentro: formas fluidas, movimentos orgânicos, grafismos que evocam cardumes, corais, algas e micro-organismos que sustentam a vida marinha.
A narrativa mergulha também no papel vital do tubarão-baleia no equilíbrio ecológico. Suas viagens cruzam ecossistemas frágeis.
riscas alongadas que simulam correntes quentes e frias;
manchas difusas que representam partículas de plâncton;
padrões em espiral que remetem à dança dos cardumes;
silhuetas suaves dos gigantes que atravessam a água como sombras de um outro tempo.
A paleta surge desse encontro entre luz e profundidade: A noite-oceânica que ecoam o mistério do fundo do mar.
A coleção foi desenvolvida como entrega acadêmica para o projeto de estamparia do SENAC, sem fins comerciais, priorizando o estudo, a observação profunda e o aprimoramento do olhar para criação de moda e design de superfícies.
O resultado é uma homenagem respeitosa, contemporânea e consciente:
uma celebração do legado de Brennand que não replica, mas dialoga, que não imita, mas interpreta, revelando novas camadas de sentido sobre um artista já consagrado na memória pernambucana.
A coleção Memórias de Barro e Luz nasce de um mergulho sensível no universo estético de Francisco Brennand, um dos artistas mais emblemáticos de Pernambuco. Para construir esse projeto, foi essencial ir até a fonte: caminhar pela Oficina Brennand, observar suas paredes repletas de textos manuscritos, suas esculturas monumentais, suas cerâmicas preenchidas por símbolos, mitologias e um olhar profundamente lírico sobre o tempo.
Essa vivência presencial foi o ponto de partida para uma leitura renovada do artista. Mais do que repetir seus símbolos mais conhecidos, a coleção buscou escutar o silêncio da Oficina, traduzindo fragmentos menos óbvios:
trechos de textos deixados por Brennand ao longo de suas paredes, pequenas inscrições escondidas entre azulejos, detalhes de forma e textura presentes em obras que muitas vezes passam despercebidas pelos visitantes.
Assim, os lenços foram construídos como superfícies narrativas e não apenas como acessórios, mas como pequenos painéis portáteis que carregam traços, palavras e atmosferas da Oficina. A estética respeita a força visual do artista, mas se afasta do lugar comum para propor uma nova maneira de enxergá-lo:
um Brennand íntimo, próximo, revelado em detalhes que geralmente ficam à margem das grandes obras.
As paletas e composições dialogam com o barro queimado, o verde-mata característico do espaço, os tons de azulejo, o brilho cerâmico e as nuances naturais da Oficina. Cada lenço se torna uma forma de contato, quase tátil, com o universo do artista — como se parte da oficina pudesse ser dobrada, vestida e reinterpretada.
A estamparia digital é uma das inovações mais significativas da moda contemporânea. Diferente dos métodos tradicionais (como a serigrafia ou a rotativa), ela utiliza impressoras de alta precisão para aplicar diretamente o desenho sobre o tecido, de forma semelhante a uma impressão em papel. O resultado é uma reprodução fiel das cores, das nuances e dos detalhes, permitindo uma liberdade estética praticamente ilimitada.
O processo se inicia na criação do design digital, desenvolvido em softwares de edição ou ilustração. Nessa etapa, o designer pode experimentar composições, sobreposições e paletas com grande flexibilidade. Após a finalização, o arquivo é preparado para impressão, e o tecido passa por tratamentos específicos que garantem a fixação e durabilidade da cor. Dependendo da fibra utilizada (natural ou sintética), são aplicados corantes compatíveis (como pigmentos, dispersos ou reativos), resultando em um acabamento preciso e resistente.
Por não exigir matrizes ou cilindros, permite a experimentação constante, tornando-se uma ferramenta essencial para criadores que buscam unir arte, tecnologia e expressão autoral.